Justiça manda estado pagar R$ 530 mil por morte de idosa que esperou por UTI

Saúde Justiça 04/08/2026 14:20 Jolismar Bruno - Primeira Página primeirapagina.com.br

O estado de Mato Grosso foi condenado a pagar uma indenização de R$ 530 mil para a família de Luiza Klein, de 67 anos, que morreu em 2025 depois de esperar nove dias por uma vaga de UTI, mesmo com uma ordem judicial para a transferência. A Justiça reconheceu que houve falha grave no serviço público de saúde.

A Justiça de Mato Grosso condenou o estado a pagar R$ 530 mil de indenização pela morte de Luiza Klein, de 67 anos. A idosa faleceu em 2025 após esperar dias por uma vaga de UTI, mesmo com uma decisão judicial que mandava transferi-la com urgência. Para o filho, Valdemar Klein, a decisão é uma vitória para todas as famílias que passam pela mesma situação.

"Essa decisão não é só para mim. É para todas as donas Luizas que, no dia em que precisarem de uma UTI, tenham esse direito", afirmou Valdemar. A Justiça reconheceu que houve falha grave no atendimento público de saúde e determinou o pagamento de danos morais, que serão divididos entre o viúvo, os três filhos e os oito netos de Luiza.

  • Luiza Klein tinha 67 anos e morava na Agrovila das Palmeiras, em Santo Antônio de Leverger.
  • Ela foi diagnosticada com cálculos nas vias biliares e, depois, com câncer.
  • A família conseguiu uma ordem judicial para a transferência, mas o leito só foi liberado nove dias depois.
  • Luiza morreu no dia seguinte à transferência, vítima de choque séptico causado por infecção generalizada.
  • A Defensoria Pública de Mato Grosso recebe de quatro a seis pedidos por semana para garantir transferências hospitalares.

A filha, Marilene Klein Carvalho, relembra a agonia da família. "A porta era de frente para a UTI. A gente pedia, pelo amor de Deus, para colocarem a mãe da gente lá. Cada dia que passava, ela piorava mais", contou. Na época, a Secretaria de Estado de Saúde disse que a demora era por causa da alta ocupação dos leitos, provocada pelo aumento de casos de dengue e chikungunya.

Justiça reconhece falha do Estado

Na sentença, a Justiça concluiu que houve falha grave na prestação do serviço público ao não garantir, em tempo hábil, o cumprimento da decisão que determinava a internação da paciente em uma UTI. Para Valdemar Klein, a condenação representa mais do que uma compensação financeira.

"Dinheiro nenhum vai trazer minha mãe de volta. A saudade continua. Mas espero que essa decisão sirva para que outras famílias não passem pelo que nós passamos", disse.

Defensoria recebe até seis pedidos por semana

O defensor público Camilo Fares Neto explica que situações semelhantes continuam sendo frequentes em Mato Grosso. Segundo ele, a Defensoria Pública recebe, em média, entre quatro e seis pedidos semanais para garantir judicialmente transferências hospitalares. Mesmo com decisões favoráveis, o principal obstáculo continua sendo a falta de leitos disponíveis.

A orientação é que pacientes ou familiares procurem a Defensoria assim que houver indicação médica para transferência e dificuldade no acesso ao tratamento, levando documentos pessoais e a documentação emitida pelo sistema de regulação.

Cirurgia foi autorizada um ano após a morte

Além da demora pela vaga de UTI, a família afirma ter vivido outro episódio que simboliza a falha do sistema de saúde. Um ano após a morte de Luiza, a Secretaria de Estado de Saúde entrou em contato informando que a cirurgia solicitada pelo SUS havia sido autorizada.

"Minha mãe já não estava mais aqui. Eu disse que aquilo era uma vergonha. Ela precisava da cirurgia quando estava viva", relembra Valdemar. Para a família, a condenação representa o reconhecimento de que houve falhas no atendimento, mas não ameniza a perda.

"Essa decisão é para todas as donas Luizas. Para que ninguém precise esperar tanto por um tratamento que pode salvar uma vida", conclui o filho.

O que diz a Secretaria de Estado de Saúde

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) informou que não houve omissão no atendimento ao caso de Luiza Klein. Segundo a pasta, desde que o pedido de transferência foi registrado, foram adotadas as medidas necessárias para buscar um leito de UTI, de acordo com os critérios da regulação e a disponibilidade de vagas.

A secretaria também afirmou que a decisão judicial ainda não é definitiva e que o estado irá analisar a sentença para decidir se apresentará recurso. A SES destacou ainda que a rede estadual mais do que dobrou a oferta de leitos de UTI nos últimos anos, passando de 302, em 2018, para 664 em 2026. Conforme a pasta, a taxa atual de ocupação é de aproximadamente 80%.

Por fim, a secretaria informou que dois novos hospitais estaduais já foram entregues e que outros três estão em construção, com o objetivo de ampliar a oferta de leitos e fortalecer a assistência hospitalar em Mato Grosso.


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