Idosos que dormem mais de 9 horas podem perder mobilidade, aponta estudo

Saúde sono 28/06/2026 10:50 Henrique Junqueira de Freitas, Agência SP agenciasp.sp.gov.br

Uma pesquisa acompanhou mais de 3 mil pessoas com mais de 60 anos por oito anos e descobriu que homens que dormem muito têm mais chance de andar mais devagar, o que não acontece com as mulheres.

Perguntar a homens idosos quantas horas eles dormem por noite pode ser uma forma simples, barata e eficaz de prever e prevenir a perda de mobilidade. Um estudo que acompanhou mais de 3 mil pessoas com mais de 60 anos descobriu que dormir mais de nove horas por noite fez com que eles andassem mais devagar ao longo de oito anos, mas isso só aconteceu com os homens. Andar devagar na velhice é um sinal importante de perda de mobilidade e pode levar à perda de independência, além de aumentar o risco de quedas, internações e até morte.

A pesquisa foi feita por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da University College London, no Reino Unido. Eles analisaram dados de 1.582 homens e 1.626 mulheres com 60 anos ou mais que participam do Estudo Longitudinal Inglês sobre Envelhecimento (ELSA). Só foram incluídas pessoas que não tinham problemas para andar no início do estudo, e elas foram acompanhadas por oito anos.

  • Homens com mais de 60 anos que dormem mais de 9 horas por noite podem perder até um quarto da velocidade ao caminhar.
  • O estudo mostrou que o mesmo problema não acontece com as mulheres, mesmo que elas durmam o mesmo tanto.
  • Dormir muitas horas, mas com o sono ruim e cheio de interrupções, prejudica a liberação de testosterona, hormônio importante para os músculos.
  • O sono longo e de má qualidade pode aumentar a inflamação no corpo, o que acelera a perda de força muscular.
  • Para idosos, o ideal é dormir entre 6 e 9 horas por noite. Dormir mais que isso pode ser um sinal de alerta.

Os resultados, publicados no Journal of the American Medical Directors Association, mostraram que os homens acima de 60 anos que dormiam mais de nove horas por noite tiveram uma redução maior na velocidade de caminhada, chegando a perder até um quarto da velocidade inicial. Já os sintomas de insônia e noites curtas de sono não tiveram impacto na mobilidade dos homens. Além disso, não foi observada nenhuma relação entre o padrão de sono e a mobilidade entre as mulheres.

Sono longo e de má qualidade

Com base nos dados do estudo, que teve apoio da Fapesp, os pesquisadores defendem que dormir mais de nove horas por noite deve ser considerado um sinal de risco para a lentidão em homens com mais de 60 anos. "Embora durmam mais horas, essas pessoas tendem a ter um sono mais fragmentado e com menos fases profundas. Esse tipo de sono, com muitas interrupções, compromete a liberação de testosterona, um hormônio essencial para a manutenção da massa muscular, especialmente em homens, acelerando a perda de velocidade da caminhada", explica Tiago da Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da UFSCar e autor do estudo.

Inflamação crônica

Além da questão hormonal, esse tipo de sono longo e interrompido está ligado ao aumento de uma inflamação crônica e de baixo grau, comum na velhice e conhecida como inflammaging. Essa condição faz com que as células do tecido musculoesquelético se degradem, atrapalha a produção de proteínas e reduz a força e a massa muscular. "Costuma-se dizer que ter músculo é ter saúde e, na velhice, isso não é diferente. Isso acontece porque o sistema imunológico e o sistema endócrino são mediados pelo sistema muscular", explica Alexandre.

No estudo, as mulheres que dormiram mais de nove horas por noite não tiveram a velocidade da caminhada afetada. Os pesquisadores explicam que isso se deve ao perfil hormonal feminino. "Nas mulheres, outros hormônios, como o IGF-1 e o GH, desempenham um papel mais importante no crescimento muscular do que a testosterona. Por isso, o impacto não foi significativo", afirma Patrícia Silva Tofani, professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coautora do artigo.

Como ressaltam os autores, é normal que o padrão de sono mude com o envelhecimento. Para pessoas idosas, o ideal é dormir entre seis e nove horas por noite, enquanto para adultos mais jovens a média recomendada fica entre sete e oito horas. "Para o idoso, que fisiologicamente tende a dormir menos e a ter mais cochilos durante o dia, dormir mais de nove horas à noite é um padrão incomum, que pode sugerir vulnerabilidade clínica. Por isso, o estudo reforça a necessidade de considerar o sono prolongado como um marcador clínico específico de risco para homens idosos", ressalta Alexandre.


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