Disputa por territórios entre facções rivais no Rio de Janeiro fez com que criminosos passassem a usar drones para lançar explosivos. Em cinco meses, foram pelo menos sete ataques ou treinamentos com esses equipamentos, que já feriram moradores, inclusive durante uma festa infantil.
As brigas entre facções rivais no Rio de Janeiro ganharam um novo campo de batalha: o céu. Desde março, já foram pelo menos sete casos de explosões de bombas lançadas por drones, seja em treinamentos de criminosos ou em ataques. A maioria aconteceu nos últimos três meses, quando as disputas por território se intensificaram.
O caso mais recente foi no sábado, quando duas pessoas que montavam brinquedos em uma festa infantil de rua ficaram feridas depois que uma bomba caiu do céu na Favela dos Dourados, em Cordovil, na Zona Norte do Rio.
- Os ataques com drones são uma nova tática das facções para disputar território sem colocar seus homens na linha de frente.
- Um adolescente de 15 anos já ficou gravemente ferido após ser atingido por uma bomba lançada por drone.
- Os criminosos também usam drones para espionar a polícia e facções rivais, como se fossem radares.
- A polícia descobriu um plano para dar aulas de como usar esses drones, mas o treinamento foi cancelado por causa do vento forte.
- Em resposta, a Polícia Civil comprou novos drones de última geração para tentar combater os criminosos.
Essa comunidade, que é controlada em sua maior parte pelo Comando Vermelho (CV), está sendo atacada por traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP). Esses criminosos são ligados a Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão. Ele é um dos chefes da facção e controla as favelas vizinhas de Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Pica-Pau e Cinco Bocas, região que ele apelidou de Complexo de Israel.
Vento forte cancelou 'aulão' de drones
Antes do ataque à Favela dos Dourados, na madrugada do dia 31, uma granada explodiu e atingiu uma casa no Complexo da Penha. A polícia acredita que era um treinamento para ensinar criminosos a usarem drones em guerras ou para vigiar rivais e a polícia. O tráfico nesse conjunto de favelas é comandado por Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso. Ele é suspeito de ser um dos líderes do CV e de mandar ataques a territórios de outras facções.
A polícia investiga a informação de que uma aula para ensinar como usar esses equipamentos chegou a ser marcada no Complexo da Penha. O evento foi anunciado nas redes sociais por uma pessoa ligada a um traficante da região. Imagens recebidas pela Polícia Civil mostram homens armados com fuzis andando em direção ao local do treinamento. Na frente deles, uma mulher carregava uma criança. Em outra imagem, oito fuzis aparecem encostados em uma parede.
Essa aula para operar os drones, que estava marcada para o dia 17 de julho, acabou não acontecendo. O motivo teria sido o vento forte, que impedia o voo dos equipamentos.
Um policial que investiga o tráfico no Complexo da Penha contou que os bandidos, além de usarem drones para lançar granadas, também têm equipamentos capazes de achar outros drones. Eles usam esses aparelhos para fazer vigilância, como se fossem um radar que mostra se há outro drone na área e de onde ele está sendo controlado.
Outras vítimas do perigo vindo do céu
Os feridos na explosão na Favela dos Dourados não são as únicas vítimas dessa nova guerra. No dia 29 de maio, um adolescente de 15 anos sofreu uma fratura exposta em uma das pernas. Ele estava no Morro da Caixa D'Água, na Penha, quando um drone teria jogado uma granada no local.
Quase dois meses antes, no dia 30 de março, outro explosivo atingiu uma casa na Vila do Sapê, em Curicica, na Zona Sudoeste. O caso aconteceu durante um ataque de traficantes do CV contra uma área dominada pela milícia.
Os outros casos aconteceram em junho e julho. Os que mais chamaram a atenção foram o de um prédio atingido por uma bomba no Parque Dois Irmãos, em Curicica, e o de uma granada encontrada em cima de uma creche na Favela do Dique, no Jardim América, na Zona Norte. Nesse último caso, o explosivo foi achado intacto e precisou ser detonado pelo Esquadrão Antibombas.
Um morador de uma comunidade em Curicica, que não quis se identificar por segurança, disse que está traumatizado com as explosões.
Parece que estamos num campo de guerra. Vivemos apavorados com bombas caindo do céu sobre as nossas casas.
Polícia compra drones e cria novo setor
No fim de março, a Polícia Civil anunciou a compra de drones chineses de seis modelos diferentes. Entre eles, estão equipamentos com sensores térmicos, para achar suspeitos escondidos em matas, e outros capazes de filmar à noite.
Na mesma época, a corporação criou a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant). Esse novo setor vai dar suporte às operações policiais e ajudar em ações de inteligência, como mapear determinadas áreas.
Esses drones fazem parte de um pacote de compra de equipamentos tecnológicos para a Polícia Civil. Nos últimos dois anos, os gastos, que incluem também softwares para extrair dados de celulares, chegaram a R$ 2,1 milhões.
A Polícia Militar informou que ainda não tem um levantamento específico sobre casos de granadas lançadas por drones, mas reconheceu que o uso desses equipamentos pelos criminosos é uma evolução das táticas deles.
A Polícia Civil disse que monitora o uso dessa tecnologia pelas facções e que as delegacias fazem investigações constantes para mapear e combater o uso de drones pelos criminosos.

Granada ainda presa a drone, durante voo sobre o Morro do Quitungo, na Zona Norte do Rio Foto: Reprodução/6-10-2024





