Claire Digon, de 88 anos, moradora do Retiro dos Artistas, conta que não tem relações sexuais há 18 anos e que não sofreu com traições dos três maridos porque aprendeu com a mãe, que morreu de amor. Ela diz que a vida é boa e que prefere a liberdade a um novo relacionamento.
Para a atriz Claire Digon, envelhecer também é sinônimo de liberdade. Moradora do Retiro dos Artistas há 19 anos, ela fala sobre carreira, amores, traições e a dor pela perda de uma filha. Bem-humorada, a quarta entrevistada da série em vídeo 'Envelhecer é uma arte', disponível na íntegra no YouTube, conta que continua trabalhando e está estudando dublagem. Feliz, não abre mão de pequenos prazeres, como uma cervejinha gelada na varanda. Nesta conversa, além de receita de pudim de leite condensado, ela ensina como chegar aos 88 anos com dignidade, gratidão, resiliência, amor-próprio e orgulho de sua trajetória.
- Claire mora no Retiro dos Artistas há 19 anos e diz que é muito feliz lá.
- Ela começou a carreira de atriz ainda criança, em uma escola onde a diretora era Cecília Meireles.
- A atriz já foi traída por dois maridos e um namorado, mas nunca deixou isso abalar sua vida.
- Claire não tem relações sexuais há 18 anos e diz que homem dá muito trabalho.
- Ela perdeu uma filha há três anos, mas mantém uma ótima relação com os outros filhos e netos.
Vida no Retiro dos Artistas
Você mora há quanto tempo no Retiro dos Artistas Há 19 anos. Se fosse ruim, eu não ficava uma semana. Tenho casa, comida e roupa lavada de graça. Tem gente que não dá valor. Eu dou. Faço de conta que é a minha casa de infância, em Bonsucesso. Tenho bons vizinhos... Participo das atividades. Sou feliz aqui.
Infância e carreira
Como era a menina Claire que morava em Bonsucesso Espevitada. Eu estudei numa escola pública cuja diretora era Cecília Meireles. Na hora do hino nacional, ela ficava em pé na varanda, linda! Nas festas cívicas, mandava me chamar para interpretar personagens da história do Brasil. Acho que foi ali que nasceu a atriz.
Teve apoio da família Quando meu pai soube que eu queria ser atriz, disse: 'Filha minha, não!'. Atriz e enfermeira não podia, por causa dos turnos à noite. Eu respondia: 'Vou, sim'. Depois ele arrumou uma viúva, se casou e foi embora. Acabei conseguindo o que queria.
Trabalho como modelo
Você trabalhou como modelo. Como foi essa experiência Fui manequim profissional da Casa Canadá (o mais célebre endereço da moda carioca a partir dos anos 30, pioneira na realização de desfiles). Tenho até hoje minha carteira assinada guardada. Desfilava muito.
Como era viver aquele glamour Não me deslumbrei. Saía da Canadá toda arrumada e chegava em casa para enfrentar a vida real. Muitas vezes não tinha água. Eu pegava dois baldes e ia buscar água no posto perto de casa. Lembro de caminhar pela rua ainda maquiada, pensando: 'Olha a realidade da vida'. Uma hora eu estava numa passarela; na outra, carregando balde.
Trabalhos recentes e dublagem
Seu trabalho mais recente foi uma série sobre homofobia, não foi Foi. Interpretei a tia Regina. Ela não admite que falem mal das sobrinhas lésbicas. É muito desbocada. Amei fazer este trabalho (dirigido por Rogério Gomes, conhecido diretor). E faço curso de dublagem, adoro! Dublagem não é só acompanhar a boca. Você precisa entender o sentimento do personagem e colocar aquilo tudo na voz.
Otimismo e amores
Você sempre foi otimista Sempre. Nunca fui de ficar pensando 'coitada de mim'. Nunca me senti sozinha. Quando queria alguma coisa, corria atrás.
Sofreu muito por amor Não me deixava sofrer. Quando ficava magoada, seguia em frente. Já fui traída, mas nunca deixei isso acabar comigo. Casei aos 21 anos com o primeiro namorado, e virgem. Durou cinco anos. Dei um flagra nele beijando na boca de uma mulher. Quando chegou em casa, a roupa dele estava toda na mala. E eu falei: 'Te manda!'.
E o segundo marido Me traiu também, foi feio. Teve também um namorado que eu peguei beijando outra num baile. Fazer o quê Parte pra outro, a fila anda.
Você teve um grande amor Tive. O primeiro. O segundo também foi importante. Viajei o mundo com ele. Conheci lugares que talvez nunca tivesse conhecido sozinha.
Vida amorosa hoje
Hoje você não pensa mais em relacionamentos Não. Sou livre! Homem dá trabalho. Essa semana, teve um aí querendo, mas eu disse: 'Não dá'. Para ter paciência com homem, a gente anula praticamente 50% da gente. Não tenho relação sexual há 18 anos.
Família e perdas
Você falou do seu pai. E sua mãe Coitada, tenho muita pena dela, porque morreu de amor aos 45 anos. Papai foi o primeiro e único homem dela. Saiu de casa, foi embora com outra, e ela chorava, chorava. Foi definhando aos poucos. O sofrimento deu-lhe um câncer no estômago. Aquilo serviu de exemplo pra mim.
Qual foi a maior dor da sua vida Perder a minha filha Celeste. Não existe dor maior do que perder filho. Ela era a minha maior amiga. Teve um tumor no intestino e morreu. Isso faz três anos, ela se foi com 53.
Como é sua relação com os filhos e netos hoje Excelente. Estão no telefone comigo todos os dias. Priscila mora em Maricá, mas todo mês fica uma semana comigo. Moisés não vem tanto. Dá muita aula de violão. E meus netos me dão muita alegria.
Um deles segue seus passos, né Está fazendo teatro. O outro é músico. Este, que é baterista, é muito meu amigo, faz as minhas compras todo mês. Da última vez, errou a marca da cerveja que eu gosto.
Prazeres e autoestima
O que lhe dá prazer hoje em dia Muita coisa. Palavra cruzada, costura, tricô, crochê... Gosto de estar ocupada.
E a cervejinha Ah, essa não pode faltar (risos). Às vezes, sento na varanda com uma cerveja gelada e um queijinho branco cortado em cubos. Fico ali tranquila. A vida é boa!
Você se acha bonita Claro que acho! Eu me arrumo todos os dias. Passo batom, ajeito as sobrancelhas, me olho no espelho. Gosto de me cuidar.
Envelhecimento e sonhos
Envelhecer assusta Não. Acho até que a idade impõe respeito. A desvantagem é que pouca gente acredita no velho, acha que só dá trabalho. A vantagem Tem gente que acredita.
Com o que você sonha Não quero sonhar, porque não sei se eu vou ter tempo. Mas queria ensinar teatro a crianças.
O que a faz chorar de alegria A chegada de um neto, o abraço de uma amiga... Ou quando dizem que vai ter pudim de leite condensado no lanche.
Como gostaria de ser lembrada As pessoas que pensem o que quiserem, que eu também não dou muita importância, não.
Se tivesse que resumir sua vida numa frase, qual seria Viver é bom, o melhor é saber viver.
Receita do pudim perfeito
Qual o segredo do pudim perfeito Para cada lata de leite condensado, outra lata de leite comum e um ovo. Faz a calda, carameliza bem a forma, tem que puxar o açúcar queimado para cima, para as laterais. Leva ao forno por 40 minutos. Precisa ficar furadinho, todo furadinho.

A atriz Claire Digon, moradora do Retiro dos Artistas Foto: Fernando Lemos





