Livro 'Um Defeito de Cor' é a história do Brasil sob a visão de uma mulher negra, diz autora

Cultura Literatura 05/07/2026 12:31 Pedro Rafael Vilela, Repórter da Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

A escritora Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), afirma que obras como a dela ajudam o povo brasileiro a entender a história do país por um ponto de vista que sempre foi esquecido pela literatura tradicional.

A literatura feita por autores negros ajuda a explicar por que o racismo ainda existe no Brasil e também briga para contar a história do país de um jeito diferente. Quem diz isso é a escritora Ana Maria Gonçalves, autora do famoso romance Um Defeito de Cor. Ela conversou com a Agência Brasil em Brasília no sábado (4).

Ana Maria foi a primeira mulher negra a se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ela foi a convidada especial do sexto encontro Julho das Pretas que Escrevem, no Distrito Federal, que faz parte do Festival Latinidades.

  • O livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, tem 952 páginas e conta a história de Kehinde, uma menina negra que foi sequestrada na África e trazida como escrava para a Bahia.
  • A escritora foi a primeira mulher negra a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira 33.
  • O livro inspirou o samba-enredo da escola de samba Portela no carnaval de 2024, no Rio de Janeiro.
  • Ana Maria diz que sua obra não é uma 'versão alternativa' da história, mas sim a história do Brasil contada por uma pessoa que sempre foi excluída.
  • Desde 1859, quando Maria Firmina dos Reis publicou o primeiro romance de uma autora negra no Brasil, até 2006, apenas oito mulheres negras lançaram um romance no país.

Livros contra o racismo

Ana Maria explica que livros como o dela e de outros escritores negros ajudam o povo brasileiro a entender por que existem políticas como as cotas raciais. 'A gente sempre soube por que precisava, mas durante muito tempo escondeu-se e o racismo era um assunto proibido dentro da sociedade brasileira', disse a escritora.

O romance mais famoso de Ana Maria, Um Defeito de Cor, tem 952 páginas e conta a história de Kehinde, uma mulher negra que, aos oito anos, foi sequestrada no Reino do Daomé (onde hoje é o Benin) e trazida como escrava para a Ilha de Itaparica, na Bahia.

Para os críticos, o livro é um dos romances mais importantes da literatura brasileira atual. Ele também inspirou o samba-enredo da escola de samba Portela no carnaval de 2024. Segundo Ana Maria, histórias como essa ajudam a entender o Brasil por ângulos que sempre foram deixados de lado na literatura.

A autora acredita que o romance conta uma história que ainda não terminou, que começou com a chegada dos primeiros africanos ao Brasil em 1530 e continua até os dias de hoje. Ela cita a música do grupo Rappa: 'Todo camburão tem um pouco de navio negreiro. A gente continua sendo os corpos que estão sendo perseguidos, presos, mortos e contados como números, não como histórias'.

Não é uma versão alternativa

Ana Maria Gonçalves não gosta quando chamam seu livro de 'contra-história'. Para ela, Um Defeito de Cor é a história do Brasil contada pelos olhos e pela vida de uma mulher negra. 'Ele não é uma outra versão, não é uma outra vertente, não está se opondo a um lugar. Ele quer ocupar o mesmo lugar que a história oficial do Brasil sempre ocupou, contada principalmente por homens brancos', afirma.

'Eu quero disputar esse lugar, não me interessa a margem, a contraproposta, a contra-história. O livro é a história', completa a escritora.

Ancestralidade na ABL

Desde que entrou na ABL, como a 13ª mulher e a primeira mulher preta a ser eleita para a academia, Ana Maria repete que não chegou sozinha a esse lugar. 'A primeira mulher eleita, Raquel de Queirós, só foi eleita depois de uma campanha de Diná Silveira de Queirós. E a minha eleição tem muito a ver com a candidatura de Conceição Evaristo. Foi ali que a sociedade brasileira olhou para a academia e perguntou: 'Não é a Academia Brasileira de Letras Está faltando alguém que representa a maior parte da população, que é a mulher preta. Nós somos 27% da população'', reflete.

Mercado de livros

No Festival Latinidades, Ana Maria se encontrou com mulheres negras, autoras e leitoras, para pensar juntas o impacto dessa rede no mercado de livros do país. 'Não dá para que nada mais seja feito sem a gente', enfatiza.

A escritora cita Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra do Brasil, autora de Úrsula, de 1859. 'De lá até 2006, fui a oitava mulher negra a publicar um romance no Brasil. Ainda é uma lacuna muito grande. A sociedade deve pra gente esse lugar de publicar e escrever', acrescenta.

Ana Maria acredita que a maior visibilidade conquistada por escritores negros nas últimas duas décadas aumentou o interesse por livros de autores negros e mudou o mercado editorial. 'O que a gente produz não é mais visto como literatura de menor qualidade ou panfletária. Isso a gente já não precisa discutir mais. Temos Jefferson Tenório, Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Cidinha da Silva e muitos outros. E está vindo uma geração muito interessante de mulheres pretas escrevendo na periferia de São Paulo, se insurgindo em outros lugares que não são mais só São Paulo e Rio de Janeiro', contextualiza.

'A gente está mudando o mercado editorial, mostrando que a diversidade é bem-vinda também para quem só quer lucro', conclui.


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