Série de Deborah Ellis utiliza a literatura para aproximar crianças e adolescentes do debate sobre guerra, refúgio e direitos humanos
A série de livros protagonizada por Parvana, criada pela escritora e ativista canadense Deborah Ellis, tem ajudado crianças e adolescentes a compreender uma das crises humanitárias mais urgentes do mundo: a migração forçada. Traduzida para mais de 17 idiomas, a obra apresenta aos jovens leitores os desafios enfrentados por crianças e adolescentes em contextos de guerra, deslocamento e instabilidade política, aproximando, com sensibilidade, um tema frequentemente tratado apenas em números e manchetes.
A relevância desse debate se intensifica diante de conflitos armados, deportações contínuas, violação de direitos humanos e crises humanitárias que seguem afetando milhões de pessoas ao redor do mundo. Para especialistas, abordar o tema desde a infância é fundamental para formar cidadãos mais conscientes, críticos e empáticos.
“Para gerar uma transformação real, temas como as crises geopolíticas e migratórias precisam ser discutidos desde cedo, de forma adequada à faixa etária. Assim, crianças e jovens podem começar desenvolver, por exemplo, consciência social, empatia e pensamento crítico. Nesse processo, livros, filmes e músicas são bons aliados para ajudar a compreender diferentes realidades diferentes e refletir sobre questões que impactam milhões de pessoas no mundo”, afirma Laura Vecchioli do Prado, coordenadora de Literatura e Informativos do Editorial de Educação Básica da SOMOS Educação.
A história de Parvana nasceu da experiência de Deborah Ellis com a realidade de meninas e mulheres afegãs afetadas pela guerra. A escritora visitou o Afeganistão na década de 1990, para compreender de perto os impactos da guerra e da opressão vivida pela população local, e, dessa vivência, surgiu a protagonista que daria origem à série de livros, hoje reconhecida internacionalmente por abordar temas como deslocamento forçado, desigualdade, opressão e sobrevivência.
O alcance da obra também ultrapassou as páginas dos livros. O primeiro volume da série, A outra face: história de uma garota afegã, foi adaptado para o cinema na animação A ganha-pão, com produção executiva de Angelina Jolie. Lançado internacionalmente em 2017, o filme foi indicado ao Oscar de melhor animação, ampliando ainda mais a visibilidade da história de Parvana e das questões humanitárias abordadas por Deborah Ellis.
A literatura como porta de entrada
Seu livro mais recente, A história de Shauzia: O sonho de uma garota afegã, chegou ao Brasil em 2024, sob o selo dr´ç´´rrreddra Editora Ática. A obra se soma a outros três títulos publicados pela editora — A outra face: História de uma garota afegã, Meu nome é Parvana: Outras histórias de uma garota afegã e A viagem de Parvana: Mais histórias de uma garota afegã —, que acompanham o crescimento da jovem em meio aos impactos da guerra, do deslocamento forçado e da busca por sobrevivência.
O quarto volume da saga acompanha a trajetória de Shauzia, melhor amiga de Parvana, que foge do Afeganistão em busca de uma vida mais segura. Refugiada no Paquistão e acompanhada apenas de seu cachorro, Jasper, a jovem precisa enfrentar a fome, a pobreza e a insegurança de viver longe de casa.
Para Carolina Candido, tradutora responsável pela versão brasileira da obra, histórias como essa têm o poder de sensibilizar os leitores para assuntos urgentes, como a crise humanitária vivida por pessoas refugiadas e deslocadas:
“Manchetes e estatísticas são eficientes em mostrar a dimensão do problema, mas acabam por desumanizar de certa forma por fazer com que pessoas virem números. A literatura faz o papel inverso; as histórias permitem que o leitor conheça as pessoas por trás dos números. Quem passa pela mesma situação pode se identificar e quem não passa cria um poder maior de se sensibilizar e de desenvolver a empatia. Ela contribui para formar uma visão mais crítica, solidária e consciente sobre o tema”, afirma.
Paulistana radicada em Lisboa, Candido compartilha que a história de Ellis ressoou profundamente com sua própria trajetória de vida e, por isso, traduzi-la foi uma experiência especialmente significativa:
“Sei como é, de certa forma, a sensação de estar em um lugar que não é o seu, de precisar aprender novos costumes e de, às vezes, se sentir diferente das pessoas ao seu redor. A grande diferença é que, no meu caso, essa foi uma escolha, enquanto as pessoas retratadas no livro foram forçadas a deixarem suas casas por circunstâncias muito mais difíceis e dolorosas”.
Uma crise global
Atualmente, o Brasil abriga mais de 2 milhões de imigrantes, entre residentes, temporários e refugiados, de aproximadamente 200 nacionalidades diferentes. Venezuelanos, haitianos, cubanos e angolanos estão entre os principais grupos, segundo o 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Os dados brasileiros revelam apenas uma parte de uma crise muito mais ampla. De acordo com o relatório Global Trends, publicado em junho de 2026 pela Agência de Refugiados da Organização das Nações Unidas, 5,4 milhões de pessoas foram forçadas a deixar seus países em busca de segurança, sobretudo para escapar de guerras e violência, ao longo de 2025. O documento também aponta que, ao fim daquele ano, 41,6 milhões de pessoas viviam como refugiadas no mundo, enquanto outras 68,7 milhões permaneciam deslocadas dentro de seus próprios países em razão de conflitos e violência.
Em meio a esse cenário, obras como a série de Parvana e Shuazia mostram como a literatura pode ajudar jovens leitores a compreender a dimensão humana de uma crise global. Ao dar rosto, voz e história a meninas que lutam para sobreviver, Deborah Ellis transforma temas complexos em uma experiência de leitura capaz de despertar empatia, reflexão e compromisso com os direitos humanos.

Foto: Divulgação/Editora Ática





