O Instituto Sou da Paz mostra que o tipo de arma e os lugares onde elas são apreendidas estão mudando no Brasil.
Mesmo com a apreensão de cerca de 100 mil armas por ano, o mercado ilegal de armas no Brasil continua grande e está mudando de escala, perfil e distribuição pelo país. É o que mostra uma análise de pesquisadores do Instituto Sou da Paz sobre dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em 2025, foram registradas 107.746 armas apreendidas, o segundo maior valor entre 2021 e 2025. Cerca de 40 mil brasileiros morrem todos os anos por causa de tiros, e as armas de fogo são responsáveis por 72,4% dos homicídios. O Brasil é um dos países que mais apreendem armas de fogo ilegais ou usadas pelo crime no mundo.
- O Brasil apreende cerca de 100 mil armas por ano, mas o crime ainda tem muitas armas.
- As pistolas estão sendo mais usadas do que os revólveres, e os fuzis estão ficando mais comuns.
- O Nordeste está apreendendo mais armas do que antes, ultrapassando o Sudeste.
- A maioria das armas do crime vem do mercado legal brasileiro, desviado por pessoas ou empresas.
- O crime organizado está criando fábricas clandestinas para fazer suas próprias armas, sem número de série.
O artigo dos pesquisadores Bruno Langeani e Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, mostra preocupação com as consequências desse mercado no Brasil. Esse problema afeta muito a saúde pública, sobrecarrega os serviços de assistência, atrapalha os investimentos e reduz a capacidade produtiva do país. Os custos da violência chegam a 5,9% do PIB.
Perfil das apreensões
Os revólveres estão sendo apreendidos com menos frequência, caindo de 38,6% para 33,5% do total. Já as pistolas aumentaram de 20,7% para 27,8%. Os fuzis, mesmo sendo uma parte menor, mais que dobraram sua participação, passando de 0,7% para 2% das apreensões no país. As espingardas também perderam espaço.
A análise também mostra uma mudança regional. O Sudeste perdeu participação, caindo de 41% das apreensões em 2021 para 36% em 2025. Já o Nordeste cresceu de 25% para 33%, por causa da expansão de facções criminosas e disputas por território.
Entre 2019 e 2023, a soma das apreensões feitas pelas polícias Civis e pela Polícia Federal passou de 109 mil unidades por ano. O Brasil ficaria em segundo lugar no ranking mundial de apreensões, atrás apenas dos Estados Unidos. Quase todas as apreensões, cerca de 98%, são feitas pelas polícias estaduais, enquanto as forças federais respondem por apenas 2%.
Mercado ilegal de armas hoje
Segundo os pesquisadores, o mercado legal brasileiro é a principal fonte de armas para o crime. No Sudeste, 57,3% das armas apreendidas entre 2018 e 2023 eram de fabricação brasileira. Os desvios acontecem de várias formas:
- Laranjas e CACs (Colecionadores, Atiradores e Caçadores) - Pessoas sem antecedentes criminais compram armas legalmente para repassar a facções, ou CACs têm suas armas roubadas.
- Segurança privada - Empresas de vigilância e transporte de valores.
- Forças do Estado - Perda de armas institucionais ou roubo de armas apreendidas que estão guardadas em delegacias ou fóruns.
A análise também mostra o tráfico internacional, que usa a triangulação: armas são exportadas legalmente para países vizinhos, como o Paraguai, ou compradas nos Estados Unidos e contrabandeadas para o Brasil. Mas esse fluxo está perdendo espaço para o mercado interno, em um fenômeno chamado de substituição de importações. Com o mercado legal mais flexível, as facções preferem se abastecer dentro do Brasil, por três motivos:
- Redução de custos e riscos - Comprar armas de laranjas elimina os custos do contrabando e o risco de ser pego na fronteira.
- Menos punição - O desvio interno é tratado como um crime menos grave do que o tráfico internacional, dificultando a investigação.
- Armas mais modernas - A permissão para civis comprarem calibres de alta energia, como 9mm e fuzis, permitiu que o crime organizado tivesse acesso a armamentos novos diretamente no Brasil.
Os especialistas também destacam a fabricação clandestina de armas no Brasil, com submetralhadoras artesanais e fuzis fantasmas ou falsificados, sem identificação de origem. Antes, essa produção dependia de componentes traficados, como armações inacabadas dos EUA ou adaptação de armas de airsoft chinesas. Mas, a partir de 2023, surgiram esquemas de produção totalmente nacionais, com plantas industriais clandestinas usando máquinas muito refinadas. Essa transição permite que organizações criminosas fabriquem centenas ou milhares de fuzis por ano, dentro do Brasil ou no Paraguai.
Isso cria um ponto cego para o rastreamento, já que são armas sem número de série válido, o que dificulta o controle e a repressão.
Recomendações
A análise mostra que a apreensão de armas não pode ser o único resultado das forças de segurança. É preciso investigar a origem delas. Os especialistas sugerem algumas propostas para ajudar a tirar as armas do mercado criminal:
- Governo Federal (MJSP, Polícia Federal e Exército): integrar dados e rastreamento, criar delegacias especializadas, fiscalizar e melhorar a marcação das armas.
- Congresso Nacional: aumentar a pena para crimes com armas de maior poder de fogo e criar leis contra a fabricação clandestina.
- Ministério Público e Judiciário: treinar promotores para investigar o topo do tráfico e criar alertas para juízes sobre o destino das armas.
- Governos Estaduais: fortalecer unidades especializadas da Polícia Civil, investir em perícia e garantir a guarda segura das armas.
A análise faz parte do Projeto Pensando o Direito, da Secretaria de Assuntos Legislativos, que discute crime organizado e políticas públicas. O artigo completo fala sobre os mecanismos de desvio doméstico, as dinâmicas internacionais e o surgimento da fabricação clandestina.

Fuzil Ak-47 com balas em cima de mesa Getty Images/Anton Petrus






