Artistas se unem contra o 'Jogo do Tigrinho' e governo não age

Brasil Apostas 10/06/2026 10:41 Naedson Martins pautadiaria.com.br

Uma campanha liderada por artistas famosos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil alerta sobre os perigos das apostas online, que já deixaram milhões de brasileiros endividados e causaram tragédias como o suicídio de um caminhoneiro. Mas o governo ainda não tomou medidas fortes para controlar esses jogos.

No dia 2 de junho de 2026, o coletivo 342 Artes, movimento liderado pela produtora Paula Lavigne, lançou a campanha "Block no Tigrinho". Grandes artistas e influenciadores da cultura brasileira se uniram para alertar sobre os males das apostas online no país.

O que motivou a campanha foi uma história muito triste: a do caminhoneiro Rael Evangelista. Ele mandou uma última mensagem para a esposa e os três filhos e depois tirou a própria vida, em outubro, após perder R$ 10 mil no Jogo do Tigrinho. Isso aconteceu em Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte, e virou um símbolo da crise que afeta milhões de brasileiros.

  • O nome "Block no Tigrinho" vem do jogo Fortune Tiger e significa dar um basta, recusar essas plataformas de aposta.
  • Mais de 27.800 pessoas já assinaram um abaixo-assinado online contra as apostas até o dia 8 de junho.
  • 57% dos brasileiros endividados dizem que seus problemas financeiros começaram com as apostas online.
  • O risco de suicídio é 15 vezes maior entre pessoas que não conseguem parar de jogar.
  • Os cassinos online movimentaram R$ 14 bilhões em 2025, sendo 72% desse dinheiro em sites ilegais.

Participam da campanha cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Djavan, Baco Exu do Blues e Emicida, e atrizes como Marieta Severo, Julia Lemmertz, Letícia Sabatella, Camila Pitanga, Luisa Arraes, Alinne Moraes e Cláudia Abreu. O vídeo lançado no Instagram fez o grupo pular de 16 mil para mais de 50 mil seguidores em apenas 15 horas.

A campanha não é exagero. Os números são assustadores: 1,8 milhão de brasileiros têm problemas financeiros por causa das apostas, segundo dados do CNC e Lenad. Bilhões de reais são movimentados, enquanto famílias inteiras gastam o dinheiro da comida e até de programas sociais para tentar a sorte.

Enquanto os artistas se mobilizam, o governo parece estar dormindo no ponto. O Ministério da Fazenda prometeu publicar ainda este ano as regras para controlar as empresas de jogos, mas essa demora é irresponsável diante de cada nova tragédia como a de Rael.

A PG Soft, empresa de Malta que criou o Fortune Tiger, não respondeu aos contatos da imprensa desde o início de junho. Uma empresa estrangeira que lucra com a destruição de famílias brasileiras e nem dá satisfação.

A hipocrisia do mercado regulado

Tem um ponto incômodo: as bets que são legalizadas estão pedindo ao governo mais fiscalização sobre os sites clandestinos. Mas parte desse coro quer apenas acabar com a concorrência, não necessariamente proteger as pessoas. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável sugere atacar a cadeia de suprimentos dos sites ilegais, mas as empresas legalizadas também fazem propaganda agressiva e também viciam os mais vulneráveis.

O que a campanha acerta e o que ainda falta

A iniciativa faz um alerta geral sobre a "epidemia" de apostas que está "criando vício, sofrimento e dívidas". O problema não é só o mercado ilegal: é a normalização das apostas, a publicidade em jogos de futebol e a influência de criadores de conteúdo que fingem ganhar dinheiro para atrair seguidores.

A campanha acerta ao mirar nesses influenciadores e ao usar a força da cultura como contrapeso. Mas conscientização sem regulação é como uma frase bonita que não resolve nada. O Brasil precisa de artistas corajosos, mas também de um governo que pare de empurrar com a barriga, de um Congresso que legisle a sério e de uma fiscalização que atinja tanto os cassinos ilegais quanto as bets que anunciam na TV.

Até lá, Rael Evangelista não será o último.


Chama no Zap

(66) 98408-0740