IA revoluciona sementes: empresa pequena fatura R$ 200 milhões e desafia gigantes

Agronegócio Tecnologia 17/10/2026 14:40 Daniel Azevedo Duarte - AgFeed agfeed.com.br Ribeirão Preto SP

A inteligência artificial reduziu custos e tempo de criação de sementes, permitindo que empresas menores, como a paulista Shull, compitam diretamente com multinacionais. Com investimentos de R$ 40 milhões, a Shull aposta em adaptação regional para dobrar seu faturamento e alcançar 10% do mercado brasileiro de milho.

A inteligência artificial (IA) transformou o desenvolvimento genético de diversas culturas, abrindo espaço para que pequenos e médios players ganhem força no mercado. Antes um terreno restrito a multinacionais com grandes capitais, o setor agora permite que empresas menores compitam com igualdade.

Evandrei Rossi, diretor de pesquisa e melhoramento da Shull, empresa especializada em genética de milho e sorgo, destaca que a tecnologia cria uma atmosfera mais propícia à competição. No caso da Shull, o foco não é apenas competir, mas crescer: o faturamento saltou de R$ 90 milhões em 2023 para cerca de R$ 200 milhões atualmente, com crescimentos superiores a 50% ao ano.

  • Redução de até 40% no tempo e custos de desenvolvimento de híbridos por meio da IA.
  • A Shull, de Ribeirão Preto (SP), detém 2% a 3% do mercado de sementes de milho no Brasil.
  • Investimentos anuais em pesquisa e desenvolvimento podem atingir R$ 40 milhões.
  • Registro de produtos no Mapa (Ministério da Agricultura) saltou de 15 para 241 entre 2006 e 2025.
  • Tecnologia permite adaptar sementes a microrregiões específicas, como o Norte do país.

Dados oficiais mostram multiplicação de registros

Fundada em 2016, a Shull de Ribeirão Preto (SP) afirma deter entre 2% e 3% do mercado brasileiro de sementes de milho. A meta é ambiciosa: alcançar 10% de participação na próxima década. Para sustentar essa expansão, a empresa destina cerca de R$ 40 milhões anuais, equivalentes a 20% do faturamento atual, para pesquisa e desenvolvimento.

Esse impulso da IA no mercado de genética coincide com uma explosão de registros oficiais. Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o número de empresas requerentes de registro passou de quatro para 29, e o de produtos registrados subiu de 15 para 241, na comparação entre 2006 e 2025.

O uso da IA no desenvolvimento genético mobiliza empresas de todos os portes. Entre as multinacionais estão a Bayer, a recém-criada Vylor (spin-off da Corteva), a Syngenta e a Basf. Somam-se a elas companhias como Inari, Heritable Agriculture, Rainbow Crops, TraitSeq, Plantik Biosciences, Avalo e Confluence Genetics.

Com abordagens diferentes, essas empresas utilizam algoritmos para identificar características de interesse, prever o desempenho de plantas, orientar cruzamentos ou apoiar estratégias de edição gênica.

IA acelera processos e reduz custos

A principal vantagem do uso de IA está na capacidade de prever o comportamento de materiais genéticos antes de submetê-los a extensos testes de campo. No milho, por exemplo, os híbridos resultam do cruzamento de duas linhagens. Como o número de combinações possíveis é praticamente infinito, os algoritmos ajudam a selecionar aquelas com maior probabilidade de reunir características desejáveis.

Na Shull, a tecnologia reduziu o ciclo de desenvolvimento de novos híbridos de pelo menos oito anos para quatro ou cinco anos. A economia de tempo se aproxima de 40%, o que implica uma redução proporcional dos custos de experimentação, pessoal e insumos.

"Conseguimos enxugar muito a máquina. A inteligência artificial nos permitiu eliminar muita coisa desnecessária", afirma Rossi. A empresa utiliza a linguagem de programação R, uma plataforma gratuita e de código aberto para análises estatísticas, combinada a pacotes especializados de inteligência artificial, alguns deles comerciais.

O sistema processa informações de até um milhão de marcadores moleculares, associados a características como produtividade, resistência a doenças, tolerância à seca e composição dos grãos. Com esses dados, os modelos identificam linhagens promissoras, recomendam cruzamentos e selecionam ambientes representativos para os ensaios, reduzindo a necessidade de testar materiais em dezenas de localidades.

"De mil linhagens produzidas, podemos identificar 300 com futuro no programa e descartar as demais. Depois, selecionamos os cruzamentos mais promissores", exemplifica o executivo. A tecnologia, entretanto, não elimina a experimentação agronômica: "A palavra final é sempre do campo, do melhorista e do time comercial", ressalta.

Estratégia regional frente aos gigantes

É justamente na adaptação regional que Rossi identifica uma oportunidade para empresas menores. Enquanto as multinacionais dispõem de grandes estruturas de pesquisa, recursos financeiros e equipes comerciais robustas, companhias mais enxutas podem responder com maior agilidade às demandas de mercados específicos.

A Shull já aplica essa estratégia no Norte do país. No Pará, identificou materiais adaptados a condições de baixa altitude, noites quentes e pressões particulares de doenças, diferentes das encontradas nas principais regiões produtoras de milho do Centro-Sul. A análise genética e ambiental permitiu selecionar um híbrido direcionado à região, lançado há aproximadamente quatro anos, que apresentou resultados positivos.

"Os modelos mostraram que tínhamos uma genética no nosso banco que poderia funcionar naquele ambiente. Lançamos o produto e foi um sucesso", relata o diretor.

O executivo reconhece, porém, que a tecnologia não elimina as vantagens estruturais das gigantes. Bancos de germoplasma, equipes especializadas, capacidade de investimento, distribuição e força comercial continuam fundamentais. "Não significa criar uma empresa do zero, usar IA e competir com Bayer ou Pioneer. Mas uma empresa pequena que já tem genética e equipe, e não tinha força tecnológica, agora pode ter", pondera.

Para Rossi, a tendência é de maior competição em milho e soja, sobretudo em microrregiões nas quais a adaptação genética pode compensar parte da diferença de escala entre os concorrentes. "A concorrência é boa. Ela mexe com o mercado, com o ânimo de todo mundo. Quando apenas uma ou duas empresas dominam, todo mundo fica muito acomodado", conclui.


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