Diretor da AgriConnection explica que, mesmo com o custo do insumo representando até 35% da produção, o cotonicultor brasileiro não vai cortar gastos, mas sim racionalizar a aplicação para garantir qualidade e rentabilidade no final da safra.
O fertilizante se tornou um dos maiores pesadelos no orçamento do agricultor brasileiro. No caso do algodão, a pressão é ainda maior, já que o insumo pode consumir até 35% do custo total de produção da lavoura.
Diante dessa realidade, Rafael Almeida, diretor de fertilizantes da AgriConnection, afirma que o cotonicultor terá uma postura diferente. Em entrevista à série SpeedCast, produzida pelo AgFeed durante o Congresso Brasileiro do Algodão em Belo Horizonte, ele explicou que o produtor não vai economizar, mas sim racionalizar. No final do dia, o que importa para ele é produtividade com qualidade de pluma, disse.
- O custo do fertilizante no algodão chega a 35% da produção total.
- O enxofre saltou de US$ 200 para US$ 1.200 por tonelada em 2026.
- Um produtor com 1.000 hectares pode gastar quase R$ 5 milhões só com insumos.
- A relação de troca entre fertilizante e soja é o principal critério para compra.
- A ureia subiu mais de US$ 80 nas últimas quatro semanas.
Algodão exige sistema de cultivo equilibrado
A lógica por trás dessa decisão está na própria natureza da cultura. O algodão é uma planta que demanda grandes quantidades de fertilizantes. Sua estrutura, que envolve tanto crescimento vegetativo quanto reprodutivo, exige altas dosagens de nitrogênio, fósforo e potássio.
O produtor tem que interagir com os três elos da cadeia de fertilizantes: os nitrogenados, os fosfatados e os potássicos, explicou Almeida. O diferencial do produtor de algodão é o olhar de sistema. Quem planta algodão em sucessão a soja e milho, e muitas vezes em áreas irrigadas com até duas safras e meia por ano, calcula com precisão a reserva de nutrientes no solo.
O objetivo é equilibrar as exportações de nutrientes entre as diferentes culturas para que o solo não fique empobrecido. O produtor realmente olha o sistema de produção e procura fazer o maior equilíbrio de nutrientes para a cultura do algodão, disse. É esse equilíbrio técnico que transforma a simples escolha de adubação em uma decisão que impacta diretamente o resultado financeiro.
O impacto direto no bolso do produtor
Os números mostram a dimensão do desafio financeiro. Em termos de desembolso de caixa, o custo do fertilizante pode ultrapassar R$ 4.500 por hectare. Isso significa que um produtor com uma área de mil hectares precisa ter quase R$ 5 milhões disponível apenas para comprar fertilizantes. Isso se torna um desafio para ele, resumiu Almeida.
No cenário atual, o elos mais sensível da cadeia é o fósforo. A situação geopolítica global elevou o preço do nutriente. Além disso, a cadeia nacional de fosfatados enfrentou um grande gargalo no fornecimento de enxofre. O insumo, que custava US$ 200 a tonelada, saltou para US$ 1.200.
Essa cadeia ficou bastante comprometida, reconheceu Almeida. Ele relatou a necessidade de um planejamento intenso, com momentos em que a empresa precisou tomar posição comprando antes de vender para garantir o suprimento dos clientes. O Brasil não chegou a sofrer desabastecimento total, mas viveu momentos críticos, principalmente no setor de soja, onde os produtores foram forçados a economizar fosfatado e a usar o fósforo já presente no solo.
Expectativas para o fim de 2026 e 2027
Para o último trimestre do ano, o executivo descreveu um mercado desafiador. Cerca de 40% do mercado da safrinha ainda não travou as compras de fertilizantes, seja por incerteza climática ou pelo preço alto do insumo. O produtor brasileiro segue muito atento à relação de troca entre o preço do fertilizante e o preço da commodity no mercado.
Nas últimas quatro semanas, as vendas de potássio subiram com força. Com a relação de troca do cloreto de potássio por saca de soja em um patamar interessante, o produtor já começou a comprar o insumo para a safra 2027/2028. Assim, o momento é de ebulição no setor, que está entregando verão, comercializando e já iniciando as entregas de safrinha e comercializando potássio para a safra de soja 27/28.
Para o fósforo, porém, o cenário segue mais incerto. Almeida acredita que as decisões vão ficar para o segundo tempo na safra de soja 2027/2028. Já no nitrogênio, a ureia subiu mais de US$ 80 nas últimas quatro semanas. Essa alta impactou também o sulfato de amônio chinês e reforçou a migração do produtor da ureia para o sulfato, que, além do nitrogênio, entrega enxofre para a planta.
A recomendação final de Almeida aos produtores é de planejamento e racionalidade. É essencial conhecer a origem do nutriente, garantir que a logística do porto à fazenda caiba na janela de produção e tomar decisões de compra baseadas na relação de troca.
O modelo de negócio da AgriConnection
Mais conhecida pela comercialização de defensivos, a AgriConnection vem ganhando relevância também no segmento de fertilizantes. A empresa adota um modelo próprio, que, como explicou Almeida, não é o de uma fabricante nem o de uma distribuidora pura.
A AgriConnection mantém a missão dela, que é conectar quem produz com quem consome. Nos fertilizantes não foi diferente, afirmou. A empresa busca diferentes fontes no mercado mundial, mineradores e traders de nitrogênio, fósforo e potássio. Com isso, monta uma cadeia de suprimentos de várias regiões do mundo para oferecer ao cliente a melhor fonte, com disponibilidade e competitividade comercial no momento em que o produtor trava as compras.
O trabalho é feito majoritariamente com fertilizantes nacionalizados. Almeida usa o termo para classificar o produto que é produzido no Brasil ou que chega ao porto já em preço FOB nacionalizado competitivo, vindo de fornecedores fortes no elo de importação. A nossa equipe trabalha muito com inteligência de mercado para fazer a leitura, principalmente da relação de troca, do preço do ponto e da disponibilidade daquele produto naquele momento, detalhou. O estudo é mercadológico e logístico, para o produto certo chegar à fazenda no momento certo.
Entre os fornecedores citados por Almeida estão a JBS Co-trade, do grupo JBS, a Mosaic Fertilizantes, OCP, Eurochem, Yara e a nacional Fertipar. No portfólio, o destaque do ano foi o sulfato de amônio, o produto mais comercializado pela companhia, seguido por ureia, MAP, super triplo, super simples e cloreto de potássio.

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