A pecuária brasileira vive um bom momento: as exportações de carne bovina subiram 15,5% no primeiro semestre, e o abate de bois também bateu recorde. Mas, para continuar crescendo e vendendo para o exterior, o setor precisa provar a origem dos animais e seguir regras de rastreabilidade cada vez mais rígidas, especialmente da União Europeia. Especialistas e representantes do setor defendem que a rastreabilidade seja prioridade para garantir a competitividade e o valor da carne brasileira.
A pecuária brasileira encerrou o primeiro semestre de 2026 em um cenário de expansão, marcado pelo crescimento das exportações de carne bovina e pelo aumento no volume de animais abatidos. Ao mesmo tempo, os mercados ampliam as exigências relacionadas à origem, sanidade, conformidade socioambiental e, sobretudo, à capacidade de comprovar essas informações. Nesse contexto, avançar em mecanismos que assegurem a rastreabilidade dos animais e permitam construir evidências sobre sua trajetória passa a ser estratégico para a competitividade e a proteção de valor da cadeia produtiva.
- Exportações de carne bovina cresceram 15,5% no primeiro semestre de 2026, gerando US$ 9,85 bilhões.
- Abate de bovinos bateu recorde: 10,29 milhões de animais no primeiro trimestre.
- A União Europeia vai exigir comprovação do uso de antimicrobianos a partir de setembro e, em dezembro, entra em vigor a lei que proíbe produtos ligados ao desmatamento (EUDR).
- O Brasil vai implantar o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), que exige identificação antes da primeira movimentação a partir de 2032.
- Rastreabilidade é vista como estratégica para manter mercados, aumentar valor da carne e evitar prejuízos para toda a cadeia.
Novas exigências internacionais reforçam esse movimento. A partir de setembro, entram em aplicação requisitos europeus relacionados à comprovação do uso de antimicrobianos, enquanto, em dezembro, começa a valer a European Union Deforestation Regulation (EUDR), que estabelece requisitos de rastreabilidade e comprovação de origem para produtos associados ao desmatamento. Embora sejam agendas regulatórias distintas, ambas evidenciam uma tendência comum: os mercados não demandam apenas informações, mas a capacidade de demonstrar sua origem, consistência e conformidade.
"O contínuo desenvolvimento do setor amplia também a responsabilidade sobre a qualidade das informações que sustentam essa produção. A rastreabilidade deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e passa a ser um ativo estratégico para a cadeia, porque permite gerar evidências, dar mais transparência aos processos, atender às novas demandas dos mercados e apoiar decisões mais qualificadas. Para que esse avanço seja consistente, precisamos construir sistemas integrados, acessíveis e que considerem a realidade dos produtores", afirma a presidente da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável, Ana Doralina.
Entre janeiro e junho, o Brasil exportou 1,705 milhão de toneladas de carne bovina, alta de 15,5% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). A receita alcançou US$ 9,85 bilhões, crescimento de 36,2%. No mercado interno, o primeiro trimestre também registrou recorde no abate de bovinos para o período, com 10,29 milhões de animais sob inspeção sanitária, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
"Mais do que acompanhar o crescimento da atividade, a rastreabilidade passa a ser uma condição para que o setor consiga responder a um ambiente comercial cada vez mais orientado por informações verificáveis. A dificuldade de comprovar origem, trajetória e conformidade pode resultar em restrições de mercado, risco reputacional para a carne brasileira e perda de oportunidades de diferenciação e de valorização", ressalta Ana, ao pontuar que, em um cenário de perda de mercados ou redução de valor, os impactos podem alcançar toda a cadeia e exercer pressão sobre os preços, inclusive sobre a arroba recebida pelo produtor que não atua diretamente no mercado externo.
No país, 2026 também representa uma etapa importante para a implementação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB). O cronograma estabelece, neste ano, a adequação dos sistemas estaduais e a integração das bases de dados, preparando o setor para o avanço gradual da identificação individual dos animais a partir de 2027 e para a obrigatoriedade antes da primeira movimentação, prevista para 2032.
Embora a identificação individual seja uma base fundamental para a rastreabilidade, sua efetividade dependerá da capacidade de conectar as informações geradas nos diferentes pontos da cadeia. Interoperabilidade entre sistemas, qualidade e padronização dos dados, integração das bases existentes e definição clara das responsabilidades são elementos necessários para transformar registros dispersos em informações confiáveis e, principalmente, em evidências que possam ser utilizadas pelos diferentes elos.
"Esse processo precisa ser conduzido de forma coordenada, evitando a criação de estruturas paralelas e pouco integradas. Não basta identificar o animal: é preciso garantir que as informações acompanhem sua trajetória, possam ser compartilhadas entre os sistemas e tenham qualidade suficiente para comprovar os atributos exigidos pelos mercados. A interoperabilidade entre sistemas, a qualidade dos dados e a definição clara das responsabilidades de cada elo são pontos fundamentais para que a identificação individual seja incorporada à rotina produtiva e gere valor para além do cumprimento das exigências regulatórias", reforça a presidente.
Esse é um dos temas que vêm sendo acompanhados pela Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável por meio do GT de Rastreabilidade e de sua participação nas discussões relacionadas à implementação do PNIB. A entidade tem contribuído para o debate sobre a integração de bases, a interoperabilidade entre sistemas e a construção de soluções junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), com o objetivo de apoiar uma implementação capaz de conectar informações ao longo da cadeia e gerar evidências confiáveis.
Outro aspecto considerado estratégico por ela é a inclusão dos produtores nesse processo. "A rastreabilidade pode contribuir para a regularização, a permanência na cadeia formal e o acesso a diferentes mercados, mas sua implementação precisa ser acompanhada de orientação, capacitação e condições para que os pecuaristas compreendam e percebam os benefícios associados à geração e ao compartilhamento de informações", complementa.
Para o segundo semestre, a presidente reforça que o avanço da rastreabilidade deve ser compreendido não apenas como resposta a uma agenda regulatória, mas como parte de uma estratégia de competitividade e proteção de valor para a pecuária brasileira. "Juntos, é possível que ela seja mais conectada, transparente e preparada para responder às demandas de mercados cada vez mais orientados por informações confiáveis", finaliza.

Pecuária brasileira em expansão





