A Viter, empresa de agro da Votorantim, que já é líder em calcário agrícola, está lançando novos produtos que são aplicados diretamente nas folhas das plantas. A companhia investiu pesado para entrar nesse mercado e quer crescer ainda mais, oferecendo também fertilizantes e produtos biológicos.
O grupo Votorantim, que existe há mais de 100 anos, foi expandindo seus negócios ao longo do tempo. Ele já trabalhou com tecidos, construção civil e finanças, e hoje está presente em várias áreas diferentes no Brasil.
Como o Brasil é muito forte no agronegócio, as necessidades dos agricultores também viraram um foco importante para o grupo. A entrada no campo aconteceu praticamente por causa de uma das áreas mais fortes da empresa, a Votorantim Cimentos.
- A Viter, empresa do grupo Votorantim, está lançando dois novos produtos para serem aplicados nas folhas das plantas, chamados Adapte e Maximize.
- A empresa já investiu R$ 300 milhões desde 2020 para aumentar a produção e criar novos produtos.
- O calcário, principal produto da Viter, é 100% brasileiro e não depende de importação, o que protege a empresa das variações do dólar.
- Em 2025, as vendas da Viter cresceram 13% em comparação com o ano anterior, mesmo com o mercado de calcário quase estável.
- A empresa quer expandir suas vendas para regiões onde ainda não tem presença forte, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Goiás e Bahia.
Em 1977, a empresa percebeu que tinha um tipo de calcário em uma de suas unidades que não servia para fazer cimento, mas era ótimo para a agricultura. "O pessoal percebeu que era um calcário importante para corrigir o solo", contou Bruno Marin, executivo que trabalha há mais de 18 anos na Votorantim Cimentos. Ele assumiu no início do ano um novo cargo: é o gerente-geral da Viter, a divisão de agro da companhia, que já é líder em calcário agrícola.
Essa "descoberta" do final dos anos 70 virou mais um negócio para o grupo, que no começo era chamado apenas de "insumos agrícolas". A maioria do solo brasileiro é muito ácido, o que atrapalha a absorção de nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio. Na época, a agricultura estava se expandindo para o Cerrado e a procura pelo calcário para fazer essa correção do solo não parou de crescer.
O nome Viter foi criado apenas em 2020, quando a Votorantim viu oportunidades para ir além do calcário e passou a focar na "mistura", ou seja, na combinação do produto com outros nutrientes que poderiam ser vendidos como fertilizantes.
Isso acontece porque o calcário serve para corrigir o solo, mas também tem uma "segunda função", como disse Marin, que é a nutrição, fornecendo cálcio e magnésio, nutrientes importantes para as plantas.
"Com a mistura, a gente oferece cálcio, magnésio e enxofre. Ali a gente tem um fertilizante mineral misto", explicou.
Nessa lógica, a empresa está anunciando um novo ajuste na sua estratégia. "Agora, em 2026, a gente percebeu que uma das nossas fortalezas é o acesso ao cálcio, magnésio e enxofre, que são nutrientes super importantes para as plantas", explicou Marin.
O portfólio da empresa já incluía produtos que combinavam nutrientes, mas aplicados no solo. Desde maio, porém, dois novos produtos passaram a ser vendidos para aplicação diretamente nas folhas. Houve também uma revisão das marcas, com nomes que buscam deixar mais clara a aplicação de cada produto. Apenas uma marca tradicional, criada em 1977, o calcário Itaú, foi mantida.
Crescimento nas vendas
Dados da Associação Brasileira dos Produtores de Calcário Agrícola (Abracal) mostram que, em 2025, o volume vendido ficou praticamente estável. Foram 61,3 milhões de toneladas, um pouco mais que os 59,6 milhões do ano anterior. Na Viter, porém, as vendas cresceram 13% no ano passado.
"A gente vem crescendo dentro do mercado. Somos a única empresa de calcário presente praticamente no Brasil inteiro. Nossos concorrentes são principalmente locais. Pelos números que temos, somos a maior empresa do setor, com aproximadamente 10% do mercado", disse Marin.
A área tratada com os produtos da Viter seria equivalente a 6 milhões de hectares, algo como a área total de cultivo agrícola do estado do Paraná.
"A gente tem crescido por causa do aumento de presença, mas desde 2023 tem sido mais desafiador fazer os volumes, por causa da pressão dos custos do produtor e da questão do crédito", explicou.
Marin disse que os clientes, neste cenário, acabam buscando prazos mais longos para pagar. Por outro lado, há uma vantagem para o segmento que, diferente dos fertilizantes tradicionais, não está tão vulnerável às variações de preços internacionais e à taxa de câmbio.
"O calcário tem pouca relação com os fertilizantes, porque ele não sofre com a dependência de importação. Ele é 100% nacional, até porque não anda muito longe. O custo do frete acaba pesando muito e você tem muitas opções regionalizadas".
Para 2026, ele não faz previsões sobre os resultados da Viter, mas comenta que o mercado de calcário, a princípio, não deve crescer. "A tendência é estável ou até cair por causa desse cenário. A gente tinha um mercado de cana, por exemplo, no ano passado ainda muito bom. Este ano você já vê com mais dificuldade, principalmente com a queda do preço do açúcar", lembrou.
As vendas de calcário no Brasil costumam aumentar a partir de abril, com pico em setembro. Este ano, nos últimos dois meses, Marin observou um produtor rural mais preocupado, mas, na média, os volumes estão se mantendo.
O executivo avalia que há uma demanda reprimida por calcário no Brasil, que deveria estar consumindo 80 milhões de toneladas. "A gente sempre espera que o produtor invista um pouco mais em calcário para ter um maior aproveitamento do NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). É por isso que, mesmo na crise, você não vê o volume de vendas caindo".
Investimento de R$ 300 milhões
Como o crescimento vem se mantendo, apesar dos desafios, a Viter foi investindo em expansão da capacidade de produção e desenvolvimento de novos produtos.
O total dos investimentos entre 2020 e 2026, segundo Marin, foi de R$ 300 milhões. Uma das ações foi a inauguração de um novo galpão em Nobres (MT), em dezembro do ano passado. Houve um aumento de mais de 20% na produção anual de calcário agrícola, passando de 740 mil para 900 mil toneladas.
Em 2024, foi inaugurada uma fábrica em Itaperuçu (PR), dedicada exclusivamente às operações da Viter e da Verdera, negócio especializado em gestão de resíduos. A planta tem capacidade para produzir 600 mil toneladas de calcário agrícola.
Com a unidade em Itaperuçu e a já existente em Rio Branco do Sul (PR), a Viter totalizou uma capacidade instalada para produzir 1,5 milhão de toneladas por ano de calcário agrícola no estado do Paraná.
Ainda em 2024, a empresa ampliou a capacidade de produção da fábrica de Itapeva (SP), adicionando mais 260 mil toneladas na produção de insumos agrícolas por ano. Na unidade, são produzidos não apenas o calcário, mas também outros fertilizantes mais elaborados.
No cargo de gerente-geral desde fevereiro deste ano, Bruno Marin diz que pretende continuar expandindo a atuação da empresa geograficamente. "A gente enxerga oportunidades em mercados onde a gente não está 100% presente, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Goiás e a própria Bahia. Chegamos na borda por causa dos desafios logísticos, então são regiões com potencial de crescer", avalia.
O grande "oceano para navegar", segundo ele, está na entrada do mercado de nutrição foliar. "Esse é o meu objetivo de longo prazo. Lançamos agora os dois produtos, mas, quando olha para o que estamos investindo em pesquisa e desenvolvimento, tem mais uma série de produtos com potencial de lançamento para os próximos anos, para firmar a Viter como destaque também nesse mercado de foliares".
Ele admite que, no começo, a representatividade da Viter no mercado de foliares, que é bastante dividido, ainda será baixa, mas enxerga "crescimento importante" no prazo de 5 anos, "com resultados mais consistentes e representativos dentro do negócio". "É o futuro que estamos enxergando. Participar desse mercado com produtos ligados a nutrição, mas também com biológicos", adiantou, sem dar mais detalhes.

Bruno Marin, gerente-geral da Viter





